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Entre o desejo e o medo de si: “O Beijo no Asfalto” expõe o custo de não se reconhecer

Em O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, o escândalo em torno de Arandir nasce de um gesto de compaixão: um beijo dado, por pedido, a um desconhecido que morre no asfalto. Mas a engrenagem que transforma esse gesto em prova de culpa não se sustenta sozinha — ela precisa de alguém disposto a alimentá-la. Na nova montagem do Grupo Oficcina Multimédia (GOM), dirigida por Ione de Medeiros, é o personagem de Aprígio, sogro de Arandir, quem carrega essa outra face da tragédia: a de um homem que também sente desejo por Arandir, não consegue reconhecê-lo em si mesmo e transforma esse conflito íntimo em perseguição.

 

A montagem, em cartaz no Teatro I do CCBB Belo Horizonte até 5 de outubro, evita transformar Aprígio em vilão de caricatura. Ele é apresentado como um homem socialmente ajustado, engravatado, reconhecível dentro dos padrões de respeitabilidade de sua época — alguém que teme, acima de tudo, perder a aceitação que essas convenções lhe garantem. É desse medo, e não de uma maldade gratuita, que nasce sua violência contra Arandir.

 

 

O Beijo no Asfalto Cred: Netun Lima

 

 

“Aprígio não é um monstro, é um homem que tem medo do que sente e não sabe o que fazer com esse medo a não ser jogá-lo para fora, em cima de outra pessoa. A gente quis mostrar isso com cuidado, sem transformar o preconceito dele em piada nem em espetáculo. É um sofrimento real, só que ele resolve esse sofrimento da pior forma possível: destruindo quem desperta nele aquilo que ele não suporta reconhecer”, afirma Ione de Medeiros, diretora do GOM.

 

A montagem sustenta essa complexidade sem apontar o dedo: Aprígio é, ao mesmo tempo, agente e vítima de um sistema de valores que não deixa espaço para o desejo que ele sente. É esse sistema — e não apenas um personagem — que a peça coloca em julgamento.

 

 

Mais informações:

O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues

Quando: até 5 de outubro de 2026

Hora: sexta a segunda, às 20h

Onde: Teatro I – CCBB Belo Horizonte Endereço: Praça da Liberdade, 450 — Funcionários, Belo Horizonte/MG

Quanto: R$15 (meia) e R$30 (inteira), disponíveis no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH

Classificação indicativa: 16 anos Duração: 100 minutos Acessibilidade: sessões com Intérprete de Libras (4, 13, 19 e 28/09) e com audiodescrição (12/09 e 2/10)

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Joseane Santos
Canceriana do coração apaixonado, amante da boa música, atleticana no corpo e na alma, mineirinha do interior que encontrou na capital seu lugar no mundo.