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Crônica: Rei da selva

A grande imprensa precisou se reinventar em meio ao contingente de catástrofes ambientais que o país passou a produzir nesses últimos anos. “O Estadão”, agora, é “O Estado de Calamidade”. A “Folha”, “Folha Seca”. E “O Globo”, influenciado por teorias terraplanistas, tornou-se “Quadrado”. Em Minas, “O Tempo” fechou. E na internet, os portais de notícias trocaram jornalistas por times de biólogos redatores. Até este “Culturaliza BH”, com o nome de “Ironiza BH”, passou a cobrir os festivais de desculpas esfarrapadas do governo Bolsonaro para justificar as queimadas na Amazônia e, agora, a mancha negra que engole o litoral do Nordeste. O presidente afirmou que óleo veio da Venezuela. E o fogo, de ONGs ambientais. Logo, não há dúvidas de onde virá o fim do mundo: da boca do presidente.

 

O protagonismo ambiental na imprensa brasileira começou com Mariana, em 2015. Pela primeira vez, os cadernos de meio-ambiente superariam os cadernos de política, inseparáveis companheiros do leitor, com suas enormes séries diárias de corrupção e falcatruas que ultrapassam ao largo o número de episódios de “Friends” ou de “Grey’s Anatomy”. Só não trabalhou à época a cobertura policial, já que, da morte de 19 pessoas e de um crime ambiental sem precedentes, ninguém saiu preso. Parece até pauta do “Sensacionalista”. Mas é fato.

 

Todavia, os cadernos de meio-ambiente engrossariam mesmo nos idos deste apocalíptico 2019. Foi quando o “replay” deixou de ser um mero recurso das transmissões de futebol e veio somar à capacidade destrutiva do homem fora das quatro linhas. Deu-se então um “replay” na tragédia de Mariana. E Brumadinho mergulhou na lama para fazer valer o velho ditado: “errar é humano, mas errar duas vezes é… brasileiro, diria o resto mundo. Nem se derrubássemos todas as árvores da Amazônia teríamos papel suficiente para imprimir tanta notícia ruim.

 

Isso quando havia árvores por lá. Pois agora viraram cinzas. Tempo em que as máquinas dos diários ambientais vão funcionando a toda força. Afinal, não somente o fim do mundo sai da boca do presidente. Saem coisas piores. Enquanto a floresta era reduzida em pó, pôs a culpa nas ONGs, no PT, na Dilma, no Lula e até na cor do aro dos óculos do ministro Ricardo Salles. Só não fez o mea culpa por ter esvaziado os órgãos fiscalizadores do meio ambiente pouco antes de as chamas levarem o verde do mapa.

 

Vieram as chuvas que apagaram o fogo na Amazônia. E quando o brasileiro finalmente voltou a ler o horóscopo nos jornais, o óleo invadiu o litoral do Nordeste. As chuvas agora são apenas de notícias ruins. O que reativou a incontinência verborrágica do presidente. Pôs a culpa na Venezuela, no comunismo e até na cara feia do Sérgio Mourão. Pois já não há mais praias limpas para passar o Réveillon. Eis o fim do mundo. Ainda não. Parem as máquinas! O fim do mundo está só no começo. E o presidente equino acabou de postar um vídeo no Twitter mostrando o presidente felino cercado por hienas comunistas na selva brasileira. Pera lá, disse o editor do jornal. Isso daqui não é “Discovery Channel”. É a “Revolução dos Bichos”! E o presidente da República, o rei da selva.

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Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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