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Crônica: O beijo cancelado

Chovia forte em Nova York, e Mary Jane corria para não molhar. Afobada pelo caminho, passou por dois mal encarados, que foram ao encalço dela. Pouco à frente, havia outros dois, e o bando de malfeitores a encurralou num beco sem saída.

 

Um deles pediu a bolsa. Mas acabou levando uma bolsada – no nariz. Outro conseguiu um chute no meio das pernas e o terceiro, um sopapo. Mas Mary Jane acabou rendida. E alguém sacou uma navalha. A batalha estava perdida.

 

Mas não para o Homem-Aranha. Peter Parker apareceu distribuindo socos e pontapés. E também feixes de teia grudenta. Estropiados, os malfeitores bateram em fuga. Tal qual o super-herói, que não queria ser visto à paisana.

 

Agora a caráter, reapareceu para a donzela – de cabeça para baixo, deslizando pela teia de aranha. Apaixonada, Mary Jane arriscou descobrir o rosto por trás da máscara e deixou revelar a boca e o queixo delicados do herói.

 

Ela então aproximou o rosto ao dele, fechou os olhos e… deu tela azul! O beijo precisou ser cancelado. Crivella mandou cancelar. O mais célebre beijo dos quadrinhos está cancelado.

 

E quando soube de outros heróis beijando na Bienal do Livro, também mandou cancelar. “Cadê a Mary Jane nessa história?”, Crivella mandou perguntar. Mas não importa. Esse beijo ninguém conseguiu parar. Outros dez mil beijos foram distribuídos por lá, e todo mundo saiu com cãibra maxilar.

 

Houve até quem falasse em democracia do beijo. O presidente? Felipe Neto. Programa de governo? Beijo para todos. Já tem o meu voto. Mas isso é devaneio de beijoqueiro. Na guerra das diferenças, o afeto é limitado e o beijo, censurado.

 

E seguimos beijando na Idade das Trevas. No Brasil de Crivella, acreditamos em Terra plana, negamos o aquecimento global e queimamos as florestas. Mas pelo menos já cancelamos os beijos cancelados. Quem sabe conseguimos promulgar a Constituição de 1988 ainda neste ano?

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Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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