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Crônica: Cabeça na Lua

Decidi deixar a cabeça voar por um instante. E voou sem rumo, sempre longe, tomando direções incertas e certeiras a um só tempo. Como fazem pássaros que voam desorientados após cativos a vida inteira. Vão apenas para não voltar. E assim meus olhos foram pousar onde quiseram, ao sabor da liberdade de quem vê com a cabeça na Lua. Momentos raros, de puro devaneio, que não têm preço. Mas viaje com moderação.

 

Com a cabeça na Lua vejo uma princesa no topo de seu castelo. Um amontoado de tijolos sobre argamassa, formando uma torre improvisada num pequeno reino de tijolos sobre argamassa sem cor. Parecia pronta para jogar suas tranças a um amor proibido lá embaixo. Mas não teve tempo. Meu celular vibrou no bolso, e caí de volta na Terra.

 

Agora, com a cabeça no solo infértil da consciência, vejo apenas uma mulher a limpar a caixa d’água na laje do barracão. Reflito, em insossa lucidez, como é curioso Belo Horizonte gerar pequenos reinos de miséria em meio à granja de ovos de ouro das grandes construtoras. São verdadeiras ilhas de pedra no oceano de prédios enormes.

 

Volto a voar alto, de onde vejo melhor as imperfeições da cidade. De onde nada parece planejado. Tudo parece obra de um acaso inconveniente. Do outro lado da rua, a cidade revela defeitos congênitos. Casebres e barracões intrometem-se nos recintos dos ricos, como manchas e pelos indesejados erram na pele lisa de uma princesa. Misturam-se como óleo e água, em uma sopa indigesta. Tirem os pobres de lá, mas não os tirem da cidade. Vão para as margens. Viram marginais.

 

Mas é para o centro que meus olhos insistem em pousar. Onde quase tudo é feio. E o pouco que tem de bonito mostra-se feio em essência. Woody Allen escreveu que o homem explora o homem e, por vezes, o contrário. E dessa relação promíscua que o pobre tira leite de pedra: enche meio copo de dignidade.

 

É o suficiente. Pois para quem veste a fantasia de herói da nação, pobre não têm vez. É tudo vagabundo. Quando em verdade o pobre é quem carrega nas costas o peso de um rico excludente. Tudo é questão de ponto de vista. Embora não seja bem uma questão para quem é ruim da vista. Usa óculos estragados e, não raro, tem a cabeça na Lua.

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Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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