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Crônica: Deus não joga dados

Ao contestar a influência do acaso nos fenômenos da física quântica, Albert Einstein cunhou a máxima “Deus não joga dados”. Entendo de prótons e elétrons pouco menos do que sei sobre os desígnios do Criador, mas posso garantir: Einstein estava certo. Nesta vida, nada é por acaso. Prova disso é a história que me foi contada à mesa do almoço no domingo de Dia dos Pais.

 

Em idos de 1970, o Atlético Mineiro recebeu o Grêmio para uma partida sem grandes emoções. Ao final do jogo, Quinho, amigo do meu pai, receberia das mãos do Alcindo — maior ídolo da história do tricolor dos pampas — a camisa suada que vestia ao marcar o gol da vitória sobre o anfitrião.

 

Atleticano fervoroso, Quinho não teve escolha. Engoliu o orgulho e aceitou o gesto de cordialidade. Mas não sem torcer o nariz para o que tanto lhe aborrecia na camisa tricolor: o azul celeste. Eis um impasse. Em armário alvinegro não havia espaço para a cor non grata. Mas descartar a lembrança de um craque não lhe parecia a melhor opção. Foi aí que o meu pai entrou na história. Torcedor de outro time azul celeste, de bom grado, ficou a camisa.

 

O manto de cores branca, preta e azul descansou por uma década numa gaveta qualquer. Sairia de lá outro punhado de tempo depois, ao ser elevado a meu uniforme oficial nos treinos da escolinha de futebol. Lembro-me como se fosse hoje o peso da indumentária de tecido denso e resistente sobre meu corpo franzino de criança. Cabiam dois ou três de mim lá dentro. O que contribuía para evidenciar ainda mais o meu desentendimento com a bola. Mesmo assim, eu não abria mão do estilo peculiar. Adorava vestir as cores de um time que não era meu.

 

Dizem que alegria de torcedor dura pouco. Mas como eu não era bem um torcedor, o entusiasmo dissipou-se rapidamente. A camisa do Grêmio foi parar no cemitério de roupas velhas. Por outra década, permaneceria por lá. Resistiria a traças, ácaros e mofos. Vestiu o esquecimento; dobrou-se ao completo desuso.

 

Reascendeu recentemente às nossas memórias com o susto de uma notícia ruim: Quinho está com câncer. Tudo começou com uma úlcera maltratada e acabou evoluindo para a doença impassível. E para piorar, o homem encontrava certa dificuldade em custear o tratamento. Eis outro impasse. E, pela segunda vez, meu pai entrou história. Agora, com uma brilhante ideia.

 

A velha camisa do Grêmio deixou o ninho de traças e foi parar num grupo de colecionadores no WhatsApp. Lá, foi disputada a socos e pontapés — ou melhor, a propostas e contrapropostas. Um interessado de São Paulo ofereceu mil reais. Outro, do Rio, três mil reais. Quem dá mais? Cinco mil reais. Arrematou um comprador do Rio Grande do Sul. Mas antes de levar, quis saber da história.

 

E quando soube se emocionou. Não por acaso, o comprador havia perdido a mãe para a mesma doença. Tamanha a comoção, subiu a alçada. Levou por seis mil. Despachamos aquele pedacinho de desígnio de Deus no mesmo dia e… extraviou-se pelo caminho.

 

Ao tempo em que escrevo estas linhas, a invulnerável camisa do Grêmio balança na carroceria de um caminhão. Acionamos os Correios, mas não se sabe ao certo o paradeiro. Certo é que ela chegará às mãos do compassivo comprador de Porto Alegre. Se Deus não joga dados, joga com cartas marcadas. Quinho ficará bem.

Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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