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Crônica: Fagulha no palheiro

Ouvi no rádio que domingo era dia de clássico em Belo Horizonte. Tempo em que há duas espécies de seres humanos sobre a Terra: o cruzeirense e o atleticano. Parte desses indivíduos é de bárbaros indomáveis que vivem em bandos, latem gentilezas e não convivem. Saem à caça um dos outros e, por vezes, o contrário. E nessa disputa de lobo e cordeiro, vence quem primeiro chega ao topo da cadeia – ora alimentar, ora penitenciária. Em comum, compartilham apenas do sentimento que os unem nos ringues do futebol: o mesmo amor puro e sincero que nutrem pela própria mãe – do juiz.

 

E no domingo de clássico não deu outra. Deu briga, baderna, balbúrdia, entrevero e até beijo na boca. Mas os bárbaros foram identificados e responsabilizados, pois a câmera do celular capturou tudo. Soube-se então como a algazarra começou. As imagens mostram o momento em que um dos pugilistas avança em direção ao camarote dos oponentes, estufa o peito de pombo, amarra a cara e solta, a plenos pulmões: Lula livre!

 

A resposta do outro lado veio na forma nada cortês de socos e pontapés, seguidos de mais socos e pontapés e de sonoros protestos de Lula ladrão, Lula cachaceiro, Lula molusco e até Bolsonaro mito – dessa vez foram longe demais, e a polícia precisou intervir; desceu o cacete na torcida à esquerda. Não bastasse a humanidade dividida, o domingo de futebol ficou polarizado. De sensatez, restou apenas o placar – 0 x 0.

 

Ledo engano de quem pensou que a febre do nós-contra-eles acometeu somente os gladiadores das arenas modernas. Até nós, jornalistas e formadores de opinião, que de tudo sabemos um pouco de nada e mais um pouco, fomos tocados pelo fervor do ódio pelo outro.

 

Foi o que levou o jornalista de direita Augusto Nunes a acertar um soco – por ironia, com a canhota – no rosto do jornalista de esquerda Glenn Greenwald, num programa de rádio com pretensões jornalísticas. Rachou a notícia e polarizou a informação. Na internet, dividiram-se as opiniões em polos opostos que invariavelmente se atraem – para o confronto.

 

Mas nada tão ruim que não possa piorar. Imaginem o profeta da esquerda, condenado pelo Batman da direita, alimentado pelo ódio de 580 dias de cárcere no sistema penitenciário brasileiro — também conhecido como Fábrica de Monstros S/A —, em turnê pelo faroeste à brasileira, com o objetivo de inflamar os ânimos naturalmente incendiados dos pobres oprimidos pelo pai maior dos opressores. Eis tudo o que não precisávamos: uma fagulha no palheiro.

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Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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