{"id":30753,"date":"2019-11-10T12:17:14","date_gmt":"2019-11-10T14:17:14","guid":{"rendered":"http:\/\/culturalizabh.com.br\/?p=30753"},"modified":"2019-11-10T12:24:12","modified_gmt":"2019-11-10T14:24:12","slug":"cronica-cinema-e-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/culturalizabh.com.br\/index.php\/2019\/11\/10\/cronica-cinema-e-religiao\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: Cinema e religi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;text-align: left\">Domingo fomos ao cinema nos despedir dos filmes nacionais. Pois a onda conservadora engoliu nossos diretores e roteiristas. E o retrato de um pa\u00eds pintado aos olhos fidedignos, ora de Walter Salles, ora de Fernando Meirelles, foi parar nos mares abissais do falso moralismo. L\u00e1 se perderam para emergir um mundo pior. Revelou-se ent\u00e3o um Brasil acima de tudo, Deus acima de todos e o pensamento intelectual ladeira abaixo. Da bandeira nacional, leu-se \u201cOrdem e Pregresso\u201d, o que levou Mill\u00f4r Fernandes a observar, perspicaz, l\u00e1 de cima: \u201cO Brasil tem um enorme passado pela frente\u201d. E o futuro ficou para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;text-align: left\">Sem futuro \u00e0 vista, eu e meu amigo e companheiro de caf\u00e9, \u00e1gua com g\u00e1s e cinema, o jornalista Eduardo de \u00c1vila, nos entretemos com o presente nefasto que se revelava na antiga telona do Belas Artes. Assist\u00edamos ao \u201cA Cidade dos Piratas\u201d, anima\u00e7\u00e3o sat\u00edrica baseada na obra da cartunista Laerte Coutinho e dirigida por Otto Guerra, que nos arrancava risos de humor \u00e1cido. Na poltrona ao lado, o cineasta mineiro Helv\u00e9cio Ratton, que n\u00e3o sabia se ria ou se chorava. Pois tamb\u00e9m se despedia do cinema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;text-align: left\">A hist\u00f3ria come\u00e7ava quando o rio Tiet\u00ea n\u00e3o era esgoto. Era rio de \u00e1gua limpa em tempos de Brasil col\u00f4nia. E quando um bandeirante desbravador das matas virgens resolveu beber \u00e1gua limpa, bebeu urina de \u00edndio, pois um \u00edndio urinava rio acima. 1 x 0 para o \u00edndio, que comemorou sacolejando desdenhoso o p\u00eanis borrachudo e sorrindo um sorriso malvado. Comemoramos tamb\u00e9m. At\u00e9 ganhei um adesivo com a simp\u00e1tica imagem obscena ao retirar o ingresso na bilheteria do cinema. N\u00e3o quis guardar, n\u00e3o quis jogar fora. Mas colei a estampa no vidro de um carro na rua. Antes, me certifiquei de que o motorista vestisse verde e amarelo \u2014\u00a0 patriota de um\u00a0 Brasil acima de todos. E xixi de \u00edndio rio abaixo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;text-align: left\">Ap\u00f3s essa singela corre\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria civilizat\u00f3ria do Brasil, deu-se vez ao drama de um homem retratado como o Minotauro no labirinto de Creta. Corpo de homem e cabe\u00e7a de touro, na anima\u00e7\u00e3o, era Laerte Coutinho, que na vida real carrega corpo de homem e cabe\u00e7a de mulher. E o labirinto de Creta era uma cidade desgovernada por um governante que odeia gays, mas que sonha com gays e acorda assustado \u2014 e excitado. Este ponto n\u00e3o encontra correspond\u00eancia no mundo real. Pois a realidade \u00e9 pior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;text-align: left\">Pior \u00e9 que talvez seja este o \u00faltimo filme a pisar no dedo mindinho do p\u00e9 do governo brasileiro em tempos de censura, obscurantismo e retrocesso cultural. E do cinema nacional nos despedimos \u2014 eu, Eduardo e Helv\u00e9cio Ratton. Pois hoje soubemos dos crit\u00e9rios para comandar a Ancine, principal fonte de financiamento dos filmes brasileiros. Deve-se &#8220;saber recitar de cor 200 vers\u00edculos b\u00edblicos, ter os joelhos machucados de tanto ajoelhar e andar com a B\u00edblia debaixo do bra\u00e7o&#8221; \u2014 palavras do presidente. Em \u201cBacurau\u201d n\u00e3o havia cinema. Pelo menos a igreja estava sempre fechada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Domingo fomos ao cinema nos despedir dos filmes nacionais. Pois a onda conservadora engoliu nossos diretores e roteiristas. E o retrato de um pa\u00eds pintado aos olhos fidedignos, ora de Walter Salles, ora de Fernando Meirelles, foi parar nos mares abissais do falso moralismo. L\u00e1 se perderam para emergir um mundo pior. 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