{"id":30439,"date":"2019-10-27T08:08:21","date_gmt":"2019-10-27T11:08:21","guid":{"rendered":"http:\/\/culturalizabh.com.br\/?p=30439"},"modified":"2019-10-27T08:16:26","modified_gmt":"2019-10-27T11:16:26","slug":"cronica-cabeca-na-lua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/culturalizabh.com.br\/index.php\/2019\/10\/27\/cronica-cabeca-na-lua\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: Cabe\u00e7a na Lua"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Decidi deixar a cabe\u00e7a voar por um instante. E voou sem rumo, sempre longe, tomando dire\u00e7\u00f5es incertas e certeiras a um s\u00f3 tempo. Como fazem p\u00e1ssaros que voam desorientados ap\u00f3s cativos a vida inteira. V\u00e3o apenas para n\u00e3o voltar. E assim meus olhos foram pousar onde quiseram, ao sabor da liberdade de quem v\u00ea com a cabe\u00e7a na Lua. Momentos raros, de puro devaneio, que n\u00e3o t\u00eam pre\u00e7o. Mas viaje com modera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Com a cabe\u00e7a na Lua vejo uma princesa no topo de seu castelo. Um amontoado de tijolos sobre argamassa, formando uma torre improvisada num pequeno reino de tijolos sobre argamassa sem cor. Parecia pronta para jogar suas tran\u00e7as a um amor proibido l\u00e1 embaixo. Mas n\u00e3o teve tempo. Meu celular vibrou no bolso, e ca\u00ed de volta na Terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Agora, com a cabe\u00e7a no solo inf\u00e9rtil da consci\u00eancia, vejo apenas uma mulher a limpar a caixa d\u2019\u00e1gua na laje do barrac\u00e3o. Reflito, em insossa lucidez, como \u00e9 curioso Belo Horizonte gerar pequenos reinos de mis\u00e9ria em meio \u00e0 granja de ovos de ouro das grandes construtoras. S\u00e3o verdadeiras ilhas de pedra no oceano de pr\u00e9dios enormes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Volto a voar alto, de onde vejo melhor as imperfei\u00e7\u00f5es da cidade. De onde nada parece planejado. Tudo parece obra de um acaso inconveniente. Do outro lado da rua, a cidade revela defeitos cong\u00eanitos. Casebres e barrac\u00f5es intrometem-se nos recintos dos ricos, como manchas e pelos indesejados erram na pele lisa de uma princesa. Misturam-se como \u00f3leo e \u00e1gua, em uma sopa indigesta. Tirem os pobres de l\u00e1, mas n\u00e3o os tirem da cidade. V\u00e3o para as margens. Viram marginais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Mas \u00e9 para o centro que meus olhos insistem em pousar. Onde quase tudo \u00e9 feio. E o pouco que tem de bonito mostra-se feio em ess\u00eancia. Woody Allen escreveu que o homem explora o homem e, por vezes, o contr\u00e1rio. E dessa rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua que o pobre tira leite de pedra: enche meio copo de dignidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u00c9 o suficiente. Pois para quem veste a fantasia de her\u00f3i da na\u00e7\u00e3o, pobre n\u00e3o t\u00eam vez. \u00c9 tudo vagabundo. Quando em verdade o pobre \u00e9 quem carrega nas costas o peso de um rico excludente. Tudo \u00e9 quest\u00e3o de ponto de vista. Embora n\u00e3o seja bem uma quest\u00e3o para quem \u00e9 ruim da vista. Usa \u00f3culos estragados e, n\u00e3o raro, tem a cabe\u00e7a na Lua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decidi deixar a cabe\u00e7a voar por um instante. E voou sem rumo, sempre longe, tomando dire\u00e7\u00f5es incertas e certeiras a um s\u00f3 tempo. Como fazem p\u00e1ssaros que voam desorientados ap\u00f3s cativos a vida inteira. V\u00e3o apenas para n\u00e3o voltar. 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