{"id":30374,"date":"2019-10-20T10:47:50","date_gmt":"2019-10-20T13:47:50","guid":{"rendered":"http:\/\/culturalizabh.com.br\/?p=30374"},"modified":"2019-10-20T10:47:50","modified_gmt":"2019-10-20T13:47:50","slug":"cronica-o-nevoeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/culturalizabh.com.br\/index.php\/2019\/10\/20\/cronica-o-nevoeiro\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: O nevoeiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Belo Horizonte, s\u00e1bado. Do d\u00e9cimo terceiro andar o mundo ficou sem cor. Os pr\u00e9dios foram todos pintados em cinza fosco. Enquanto que carros e transeuntes, em seus eternos ir e vir, v\u00eam e v\u00e3o como manchas turvas indistingu\u00edveis aos olhos de quem as v\u00ea daqui de cima. A fuma\u00e7a engoliu a cidade. Os jornais d\u00e3o conta de queimadas nas montanhas de Minas Gerais. Sem chuva a contento, vivemos uma fic\u00e7\u00e3o de Stephen King \u2013 \u201cO Nevoeiro (2017)\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Antes fossem extraterrestres por tr\u00e1s da n\u00e9voa branca, como na s\u00e9rie da Netlix. Poderia me esconder no porta-malas de uma nave espacial e me mandar daqui. Mas s\u00e3o outras as criaturas, com bra\u00e7os compridos, atr\u00e1s da fuma\u00e7a. Nada tem\u00edvel ou amea\u00e7ador, pelo contr\u00e1rio. S\u00e3o apenas as mangueiras dos bombeiros, cuspindo a pouca \u00e1gua que temos para conter chamas que queimam o pouco do verde que nos resta. Dos p\u00e9s da Serra do Curral, d\u00e1 pra ver. Enormes jatos de \u00e1gua la\u00e7ados de cima para baixo. Por vezes, s\u00e3o os helic\u00f3pteros que trabalham, derramando uma cascata de \u00e1gua preciosa nas linhas de fogo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Soube que o fogo no cerrado pode ser sinal de renova\u00e7\u00e3o. Quando n\u00e3o \u00e9 o homem, com suas bitucas incendi\u00e1rias de cigarro ou com queimadas criminosas de pastagens, o mato, como o monge de Saigon, provoca autoimola\u00e7\u00e3o. E faz da luz solar, chamas. Arde at\u00e9 morrer. Mas morre na certeza de nascer de novo. Pois \u00e9 quando parte das sementes conseguem fissurar a casca dura e germinar na terra escura. Segredos da natureza. E nessa atitude extrema, somente as \u00e1rvores de troncos grossos e retorcidos ter\u00e3o for\u00e7a o suficiente para sobreviver \u00e0 morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A vida nos faz assim. \u00c1rvores do cerrado. Vamos encurvando a coluna e engrossando as estruturas da alma, na medida em que suportamos a impass\u00edvel lei da nossa exist\u00eancia: a gravita\u00e7\u00e3o da tristeza. Se vierem as alegrias, sorrimos; e se s\u00e3o s\u00f3 tristezas, sorrimos no final, pois a natureza nos ensina que h\u00e1 vida nova ap\u00f3s a queima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Esse s\u00e1bado come\u00e7ou triste. Escuro e cinza. At\u00e9 o sol nasceu atr\u00e1s da fuma\u00e7a. Mas daqui de cima vejo tr\u00eas manchas na rua, que imagino ser um pai, uma filha e um cachorro passeando. Imagino tamb\u00e9m um sorriso no rosto dos tr\u00eas. S\u00e3o sementes plantadas no solo de um s\u00e1bado escuro. Neste domingo o sol se abriu, a fuma\u00e7a se dissipou. Veio a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Belo Horizonte, s\u00e1bado. Do d\u00e9cimo terceiro andar o mundo ficou sem cor. Os pr\u00e9dios foram todos pintados em cinza fosco. Enquanto que carros e transeuntes, em seus eternos ir e vir, v\u00eam e v\u00e3o como manchas turvas indistingu\u00edveis aos olhos de quem as v\u00ea daqui de cima. A fuma\u00e7a engoliu a cidade. 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