{"id":29429,"date":"2019-09-08T10:19:18","date_gmt":"2019-09-08T13:19:18","guid":{"rendered":"http:\/\/culturalizabh.com.br\/?p=29429"},"modified":"2019-09-08T10:19:51","modified_gmt":"2019-09-08T13:19:51","slug":"__trashed-17","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/culturalizabh.com.br\/index.php\/2019\/09\/08\/__trashed-17\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: A despedida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Encaixotei a minha vida. Os livros, os discos e as melhores mem\u00f3rias. O resto distribui em sacolas: as roupas, os sapatos e outro monte de nada necess\u00e1rio. \u00c9 que chegou a hora. Vou-me embora, e vou-me de mudan\u00e7a. Para onde, n\u00e3o sei. Algo pr\u00f3ximo da incerteza, esquina com a d\u00favida, no centro da grande quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Certeza apenas do vazio no peito. Deixo para tr\u00e1s o que teve de ser deixado. Uma gigante companheira, que n\u00e3o coube em caixas de papel\u00e3o. Ficou para tr\u00e1s. Eu a levaria se pudesse carregar um pedacinho do mundo \u00e0s minhas costas. Mas n\u00e3o d\u00e1. N\u00e3o posso. Eu vou, ela fica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Mas a levo guardada na lembran\u00e7a, pois a mem\u00f3ria n\u00e3o tem paredes. Comporta toda a saudade de um homem s\u00f3. E ser\u00e1 grande a saudade das nossas manh\u00e3s. Fazia-me um bem danado beber da sua beleza. Embora me esquecesse de beber do caf\u00e9, que esfriava na caneca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">E beber pelos olhos embriaga os sentidos. A manh\u00e3 fica mais mansa e o dia, menos amargo. Sa\u00eda para trabalhar b\u00eabado de sua beleza. No entanto, ao retornar, a escurid\u00e3o a teria tomado de mim. \u00c0 noite ela veste o luto e mistura-se ao breu. Vai embora. Mas jamais escaparia aos meus sentidos embriagados. Sabia que estava bem ali, diante de olhos que nada veem. S\u00e3o truques da noite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Nos dias ruins era ainda pior. Escondia por detr\u00e1s da n\u00e9voa branca e espessa, feito um v\u00e9u sobre o rosto da noiva arrependida; e n\u00e3o dava o ar da gra\u00e7a a ningu\u00e9m \u2013 nem para mim. Eu a aceitava, simplesmente. Um estado de esp\u00edrito da natureza, que\u00a0 logo passava. Pois ela reaparecia \u00e0s tantas do dia, enchendo os olhos de quem a via.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Mostrava um espet\u00e1culo de altos e baixos l\u00e1 em cima. S\u00e3o formas naturalmente desorganizadas; espontaneamente desequilibradas. Contra o azul celeste, parecia a onda do mar, que veio quebrar em pleno c\u00e9u de Belo Horizonte. Improv\u00e1vel beleza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Banhada pela luz \u00e0 tardinha era ainda mais linda. Ia variando entre tons vermelhos escuros e claros, como quem troca de roupa; at\u00e9 que o sol encontrava abrigo na sua imensid\u00e3o. E ca\u00eda a noite. Voltava a revestir-se do impenetr\u00e1vel mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">S\u00e3o coisas da natureza que eu aprendi a respeitar. Afinal, foram cinco anos vivendo \u00e0 sua sombra. Quando cheguei, a via como uma t\u00edpica escultura natural das Minas Gerais. Hoje, ao abrir a janela, vejo um peda\u00e7o de mim mesmo naquela sali\u00eancia de mundo. E observo com os olhos cheios de despedida, a Serra do Curral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encaixotei a minha vida. Os livros, os discos e as melhores mem\u00f3rias. O resto distribui em sacolas: as roupas, os sapatos e outro monte de nada necess\u00e1rio. \u00c9 que chegou a hora. Vou-me embora, e vou-me de mudan\u00e7a. Para onde, n\u00e3o sei. 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