{"id":29000,"date":"2019-08-18T09:15:40","date_gmt":"2019-08-18T12:15:40","guid":{"rendered":"http:\/\/culturalizabh.com.br\/?p=29000"},"modified":"2019-08-20T23:39:33","modified_gmt":"2019-08-21T02:39:33","slug":"cronica-deus-nao-joga-dados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/culturalizabh.com.br\/index.php\/2019\/08\/18\/cronica-deus-nao-joga-dados\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: Deus n\u00e3o joga dados"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Ao contestar a influ\u00eancia do acaso nos fen\u00f4menos da f\u00edsica qu\u00e2ntica, Albert Einstein cunhou a m\u00e1xima \u201cDeus n\u00e3o joga dados\u201d. Entendo de pr\u00f3tons e el\u00e9trons pouco menos do que sei sobre os des\u00edgnios do Criador, mas posso garantir: Einstein estava certo. Nesta vida, nada \u00e9 por acaso. Prova disso \u00e9 a hist\u00f3ria que me foi contada \u00e0 mesa do almo\u00e7o no domingo de Dia dos Pais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Em idos de 1970, o Atl\u00e9tico Mineiro recebeu o Gr\u00eamio para uma partida sem grandes emo\u00e7\u00f5es. Ao final do jogo, Quinho, amigo do meu pai, receberia das m\u00e3os do Alcindo\u00a0\u2014\u00a0maior \u00eddolo da hist\u00f3ria do tricolor dos pampas\u00a0\u2014\u00a0a camisa suada que vestia ao marcar o gol da vit\u00f3ria sobre o anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Atleticano fervoroso, Quinho n\u00e3o teve escolha. Engoliu o orgulho e aceitou o gesto de cordialidade. Mas n\u00e3o sem torcer o nariz para o que tanto lhe aborrecia na camisa tricolor: o azul celeste<em>. <\/em>Eis um\u00a0impasse. Em arm\u00e1rio alvinegro n\u00e3o havia espa\u00e7o para a cor <em>non grata.<\/em> Mas descartar a lembran\u00e7a de um craque n\u00e3o lhe parecia a melhor op\u00e7\u00e3o. Foi a\u00ed que o meu pai entrou na hist\u00f3ria. Torcedor de outro time azul celeste, de bom grado, ficou a camisa.<!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O manto de cores branca, preta e azul descansou por uma d\u00e9cada numa gaveta qualquer. Sairia de l\u00e1 outro punhado de tempo depois, ao ser elevado a meu uniforme oficial nos treinos da escolinha de futebol. Lembro-me como se fosse hoje o peso da indument\u00e1ria de tecido denso e resistente sobre meu corpo franzino de crian\u00e7a. Cabiam dois ou tr\u00eas de mim l\u00e1 dentro. O que contribu\u00eda para evidenciar ainda mais o meu desentendimento com a bola. Mesmo assim, eu n\u00e3o abria m\u00e3o do estilo peculiar. Adorava vestir as cores de um time que n\u00e3o era meu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Dizem que alegria de torcedor dura pouco. Mas como eu n\u00e3o era bem um torcedor, o entusiasmo dissipou-se rapidamente. A camisa do Gr\u00eamio foi parar no cemit\u00e9rio de roupas velhas. Por outra d\u00e9cada, permaneceria por l\u00e1. Resistiria a tra\u00e7as, \u00e1caros e mofos. Vestiu o esquecimento; dobrou-se ao completo desuso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Reascendeu recentemente \u00e0s nossas mem\u00f3rias com o susto de uma not\u00edcia ruim: Quinho est\u00e1 com c\u00e2ncer. Tudo come\u00e7ou com uma \u00falcera maltratada e acabou evoluindo para a doen\u00e7a impass\u00edvel. E para piorar, o homem encontrava certa dificuldade em custear o tratamento. Eis outro impasse. E, pela segunda vez, meu pai entrou hist\u00f3ria. Agora, com uma brilhante ideia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A velha camisa do Gr\u00eamio deixou o ninho de tra\u00e7as e foi parar num grupo de colecionadores no <em>WhatsApp<\/em>. L\u00e1, foi disputada a socos e pontap\u00e9s \u2014 ou melhor, a propostas e contrapropostas. Um interessado de S\u00e3o Paulo ofereceu mil reais. Outro, do Rio, tr\u00eas mil reais. Quem d\u00e1 mais? Cinco mil reais. Arrematou um comprador do Rio Grande do Sul. Mas antes de levar, quis saber da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">E quando soube se emocionou. N\u00e3o por acaso, o comprador havia perdido a m\u00e3e para a mesma doen\u00e7a. Tamanha a como\u00e7\u00e3o, subiu a al\u00e7ada. Levou por seis mil. Despachamos aquele pedacinho de des\u00edgnio de Deus no mesmo dia e&#8230; extraviou-se pelo caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ao tempo em que escrevo estas linhas, a invulner\u00e1vel camisa do Gr\u00eamio balan\u00e7a na carroceria de um caminh\u00e3o. Acionamos os Correios, mas n\u00e3o se sabe ao certo o paradeiro. Certo \u00e9 que ela chegar\u00e1 \u00e0s m\u00e3os do compassivo comprador de Porto Alegre. Se Deus n\u00e3o joga dados, joga com cartas marcadas. Quinho ficar\u00e1 bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao contestar a influ\u00eancia do acaso nos fen\u00f4menos da f\u00edsica qu\u00e2ntica, Albert Einstein cunhou a m\u00e1xima \u201cDeus n\u00e3o joga dados\u201d. Entendo de pr\u00f3tons e el\u00e9trons pouco menos do que sei sobre os des\u00edgnios do Criador, mas posso garantir: Einstein estava certo. Nesta vida, nada \u00e9 por acaso. 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