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Crônica: A última

Quatro meses e uma crônica a cada domingo. Desafio que exigiu estripulias para honrá-lo. Do tipo, escrever no balanço do banco de trás de um carro da Uber, enquanto exercitava contorcionismo mental para dividir a atenção entre o texto a ser entregue no dia seguinte e a carência ululante do motorista, ávido em puxar conversas sobre o tempo.

 

Por vezes, temos sorte de escritor. E a conversa fiada se revela uma própria crônica pronta. Aí é só transcrever e correr para o abraço. Lembro-me, certa vez, em que durante uma viagem de táxi, começava a rascunhar mais uma coluna sobre as desventuras em série do presidente da República, quando, de repente, descobri que estava sendo conduzido por um taxista filósofo.

 

— Hoje é o meu aniversário.

— Parabéns!

— Por quê?

— Porque é o seu aniversário.

 

Ele então começou a explicar porque não era motivo para celebração. Primeiro, porque comemoramos aniversários em datas erradas. A contar do dia do nascimento, dali a três meses é que realmente sopraríamos a vela do primeiro ano. Demorei, mas entendi: contabiliza-se os nove meses dentro da barriga da mãe, somados aos três meses de vida extrauterina, para, finalmente, chegarmos ao aniversário. Afora que cada aniversário representaria, ao final dessa aritmética, um aniversário a menos para comemorar. Não é Nietzsche, mas é filosofia de taxista.

 

Nesse tempo de quatro meses escrevi também algumas crônicas a prazo. Adicionava uma palavra aqui, outra ali, até que conseguisse formar uma frase e depois um parágrafo inteiro. Aproveitava cada minutinho que sobrava para avançar com o texto, como quem sai catando e juntando moedinhas de cinco centavos na primeira semana fora de casa. É uma luta pela sobrevivência num mundo murrinha que limita o dia em 24 horas. E nós que nos viremos para dar conta!

 

Mas desta vez eu me superei. Esta crônica é algo diferente, ousado, inaudito. Pois a escrevi enquanto caminhava pelas ruas movimentadas de Belo Horizonte. Isso mesmo: mentalizei linha por linha, ponto a ponto, enquanto atravessava as ruas e avenidas que me levam do trabalho até a minha casa.

 

E as particularidades não param aqui. Esta é uma última crônica. Crônica com a qual me despeço do distinto leitor — alguém me lê? — e, sobretudo, com a qual agradeço ao grande Charles, quem me confiou este espaço que chamei de meu nesses quatro meses. E agora devolvo a ele. Pois passarei a me perder por outros caminhos literários, em blog vizinho, também vinculado a este Portal Uai.

 

Eis aqui uma última crônica de tantas últimas crônicas neste eterno lapso que separa o início e o fim de começos e recomeços. Até logo, pois pretendo voltar. Enquanto isso, dou trégua ao leitor.

 

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Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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