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Crônica: O nevoeiro

Belo Horizonte, sábado. Do décimo terceiro andar o mundo ficou sem cor. Os prédios foram todos pintados em cinza fosco. Enquanto que carros e transeuntes, em seus eternos ir e vir, vêm e vão como manchas turvas indistinguíveis aos olhos de quem as vê daqui de cima. A fumaça engoliu a cidade. Os jornais dão conta de queimadas nas montanhas de Minas Gerais. Sem chuva a contento, vivemos uma ficção de Stephen King – “O Nevoeiro (2017)”.

 

Antes fossem extraterrestres por trás da névoa branca, como na série da Netlix. Poderia me esconder no porta-malas de uma nave espacial e me mandar daqui. Mas são outras as criaturas, com braços compridos, atrás da fumaça. Nada temível ou ameaçador, pelo contrário. São apenas as mangueiras dos bombeiros, cuspindo a pouca água que temos para conter chamas que queimam o pouco do verde que nos resta. Dos pés da Serra do Curral, dá pra ver. Enormes jatos de água laçados de cima para baixo. Por vezes, são os helicópteros que trabalham, derramando uma cascata de água preciosa nas linhas de fogo.

 

Soube que o fogo no cerrado pode ser sinal de renovação. Quando não é o homem, com suas bitucas incendiárias de cigarro ou com queimadas criminosas de pastagens, o mato, como o monge de Saigon, provoca autoimolação. E faz da luz solar, chamas. Arde até morrer. Mas morre na certeza de nascer de novo. Pois é quando parte das sementes conseguem fissurar a casca dura e germinar na terra escura. Segredos da natureza. E nessa atitude extrema, somente as árvores de troncos grossos e retorcidos terão força o suficiente para sobreviver à morte.

 

A vida nos faz assim. Árvores do cerrado. Vamos encurvando a coluna e engrossando as estruturas da alma, na medida em que suportamos a impassível lei da nossa existência: a gravitação da tristeza. Se vierem as alegrias, sorrimos; e se são só tristezas, sorrimos no final, pois a natureza nos ensina que há vida nova após a queima.

 

Esse sábado começou triste. Escuro e cinza. Até o sol nasceu atrás da fumaça. Mas daqui de cima vejo três manchas na rua, que imagino ser um pai, uma filha e um cachorro passeando. Imagino também um sorriso no rosto dos três. São sementes plantadas no solo de um sábado escuro. Neste domingo o sol se abriu, a fumaça se dissipou. Veio a vida.

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Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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