Crônicas Culturaliza Literatura

Crônica: Os censores do capitão

O ano era 1976. Tempo em que os censores do general ainda estavam afiados. Cortavam-se cabeças pensantes, versos de liberdade e pernas caminhando contra o vento. Reduziram o país em retalhos. Até os rolos dos filmes nos cinemas, picotaram. E jogaram tudo para o alto. Pareciam confetes de Carnaval. Se o Carnaval naquele tempo não fosse cortado.

 

Só não conseguiam aparar o entusiasmo do povo com a grande estreia. “Dona Flor e Seus Dois Maridos” entrava em cartaz – mas não sem algumas cenas cortadas. Pouco importava. A sala do cinema de rua estava lotada — homens. Pois havia esperança de se ver a Dona Flor pelada. Tudo pronto para começar o filme. Formou-se um silencio sepulcral. Apagaram-se as luzes e acendeu a tela… da censura.

 

Um enorme documento era projetado na telona. E o clarão que tomou conta revelava caras de espanto e decepção. Era coisa do Ministério da Justiça, do Departamento da Polícia Federal e, finalmente, da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Um homem pensou ter confundido Jorge Amado com outro Jorge — o George Orwell. Foi-se embora. Mas “1984” era daqui a pouco — uma distopia não muito distante. A realidade era pior. Dona Flor foi censurada.

 

Não seria para menos. Amor a três era a democratização do afeto. E por isso o general mandou cortar um amor da Dona Flor. Cortaram o Vadinho, o bom de cama. Deixaram o Teodoro — não teve sexo.

 

“Dona Flor” reencontraria os “Seus Dois Maridos” anos depois, tempo em que os censores ficaram cegos de tanto corte. Mas foi um fracasso. O povo agora só queria saber da novela das oito. Tinha sexo e o melhor, não tinha cortes. Os tempos eram outros. O Estado Novo alvorecia, trazendo novos ares de liberdade, que sopravam censores e generais para longe do povo.

 

Até que o ano virou 2019. Tempo em que os censores do capitão se revelaram. E o resto é história sendo escrita agora. Antes que cortem os meus dedos fora.

 

Deixe o seu comentário

Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *