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Crônica: Palhaço sem graça

Uma gargalhada de repente destoa do silêncio da noite. E me desperto de um sono raso e mal dormido, ao qual não mais voltarei. Pois agora me propus a descobrir quem é o dono da risada perdida na madrugada. Um bêbado na sarjeta? Alguém sedento pelos prazeres noturnos? Ou um boêmio eufórico após a bebedeira? Não sei. Levantei para ver. Mas não vi ninguém. A noite guardou esse segredo para si.

 

Aliás, as próprias gargalhadas carregam seus segredos. Diante de quem ri, tateamos um quarto escuro em busca da saída. E quando pensamos encontrar o botão da luz, em verdade enfiamos o dedo na tomada. As gargalhadas são assim. Traiçoeiras. Aparentemente inofensivas, escondem as maiores tragédias.

 

Charlie Chaplin fazia-nos rir. Mas ostentava um olhar invariavelmente triste no rosto. Já Robin Williams arrancava risos e lágrimas na mesma cena, como um maestro da sinfonia dos sentimentos. Suicidou-se. Um sorriso, por vezes, não é o que parece. Há dois palhaços em cartaz nos cinemas. São símbolos da alegria. Mas que não fazem ninguém rir – espalham o medo.

 

Em “It: Capítulo Dois”, o palhaço Pennywise faz da mente das pessoas o seu picadeiro. Brinca com os traumas, joga com os medos e se consagra como um exímio malabarista das fraquezas humanas. E quando ri, o faz com escárnio.

 

Outro palhaço – tão infausto quanto o primeiro – também chama atenção ao gargalhar. O Coringa, de Joaquin Phoenix, ri porque não tem escolha. Sofre de riso histérico e incontinente. Ri, porque é triste, sofrido e doente. E por trás da gargalhada de palhaço esconde a frustração de não conseguir fazer ninguém rir. Embora riam dele.

 

Fora do cinema, não encontrei o dono da gargalhada perdida. Parece ter vindo dos grotões de uma alma errante qualquer. Misturou-se aos segredos da noite. E sumiu. Levou consigo as dores de quem riu. Resignado, retomei o caminho de volta para o sono. Mas acabei me perdendo no atalho de um sonho ruim. E nele havia um palhaço. Não teve graça.

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Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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