Crônicas Culturaliza Literatura

Crônica: O tempo do velho

Os quinze minutos que me restam à sombra de uma das árvores do bairro Cidade Jardim são sagrados. É o tempo que disponho para ler o jornal antes de pegar no batente. Um tempo curto, que nunca dá tempo. Pois as notícias muitas – e geralmente ruins. Leio as crônicas.

 

Dia desses, não foi diferente. No intervalo curto de um quarto de hora, encostei o carro ao pé de uma gameleira e comecei a ler o Ruy Castro. Mas não deu tempo. Roubou-me os poucos minutos de leitura um senhorzinho humilde e minguado que ia passando na rua.

 

Vestia camisa surrada, bermuda rasgada e tinha os pés descalços no asfalto quente. O velhinho parou à minha frente, sentou-se ao meio fio e lançou-me um olhar vacilante – como quem pedia licença para fazer algo de errado. Olhei de volta e vi um rosto manso e afável, que esboçava um sorriso leve e constante. Assenti, devolvendo-lhe o gesto.

 

Diante da presença do velho veio-me na hora a lembrança de meu avô. E inevitavelmente afeiçoei-me àquela figura amistosa. Era decerto o avozinho de alguém. Ou apenas um velhinho que levantou-se do sofá para receber o afago do sol da manhã.

 

Mas para minha surpresa o propósito do velho era outro — tão imprevisível quanto abominoso. Escondido entre um carro e outro, mexeu no bolso da camisa e encontrou um cachimbinho de metal. Preparou a droga com um pilão. Meu coração se apequenou de espanto. Fechei o jornal e saí perplexo do carro.

 

— O senhor não vai largar essa coisa feia?

 

— As dores me incomodam. Não tem outro jeito.

 

E contou que havia passado por quatro cirurgias. Sugeri que fosse a um posto de saúde. Que buscasse um remédio, um médico, uma ajuda, ou qualquer outra coisa que não fosse o veneno. Deveria haver outra forma de suportar a dor. Pensei tê-lo convencido. Mas ele estava certo: não teve outro jeito.

 

Quando ia partindo, vi aquele rosto senil iluminar-se pela brasa. Era tarde demais. O velho tragou a pedra e soprou as suas dores ao vento. Que levou a sua dignidade, esperança e lucidez.

 

Olhava de longe aquela cena e sentia uma ponta de culpa. Pois o meu tempo era curto — um quarto de hora. Mas o tempo do velho era ainda mais. Alguns dias a menos de vida.

Deixe o seu comentário

Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *