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Crônica: A despedida

Encaixotei a minha vida. Os livros, os discos e as melhores memórias. O resto distribui em sacolas: as roupas, os sapatos e outro monte de nada necessário. É que chegou a hora. Vou-me embora, e vou-me de mudança. Para onde, não sei. Algo próximo da incerteza, esquina com a dúvida, no centro da grande questão.

 

Certeza apenas do vazio no peito. Deixo para trás o que teve de ser deixado. Uma gigante companheira, que não coube em caixas de papelão. Ficou para trás. Eu a levaria se pudesse carregar um pedacinho do mundo às minhas costas. Mas não dá. Não posso. Eu vou, ela fica.

 

Mas a levo guardada na lembrança, pois a memória não tem paredes. Comporta toda a saudade de um homem só. E será grande a saudade das nossas manhãs. Fazia-me um bem danado beber da sua beleza. Embora me esquecesse de beber do café, que esfriava na caneca.

 

E beber pelos olhos embriaga os sentidos. A manhã fica mais mansa e o dia, menos amargo. Saía para trabalhar bêbado de sua beleza. No entanto, ao retornar, a escuridão a teria tomado de mim. À noite ela veste o luto e mistura-se ao breu. Vai embora. Mas jamais escaparia aos meus sentidos embriagados. Sabia que estava bem ali, diante de olhos que nada veem. São truques da noite.

 

Nos dias ruins era ainda pior. Escondia por detrás da névoa branca e espessa, feito um véu sobre o rosto da noiva arrependida; e não dava o ar da graça a ninguém – nem para mim. Eu a aceitava, simplesmente. Um estado de espírito da natureza, que  logo passava. Pois ela reaparecia às tantas do dia, enchendo os olhos de quem a via.

 

Mostrava um espetáculo de altos e baixos lá em cima. São formas naturalmente desorganizadas; espontaneamente desequilibradas. Contra o azul celeste, parecia a onda do mar, que veio quebrar em pleno céu de Belo Horizonte. Improvável beleza.

 

Banhada pela luz à tardinha era ainda mais linda. Ia variando entre tons vermelhos escuros e claros, como quem troca de roupa; até que o sol encontrava abrigo na sua imensidão. E caía a noite. Voltava a revestir-se do impenetrável mistério.

 

São coisas da natureza que eu aprendi a respeitar. Afinal, foram cinco anos vivendo à sua sombra. Quando cheguei, a via como uma típica escultura natural das Minas Gerais. Hoje, ao abrir a janela, vejo um pedaço de mim mesmo naquela saliência de mundo. E observo com os olhos cheios de despedida, a Serra do Curral.

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Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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