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Crônica: Vá de dublê!

Nas cenas iniciais de “Era Uma Vez em… Hollywood”, novo filme de Quentin Tarantino, o ator de faroeste Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) define o papel do seu dublê como sendo “o cara que cai do cavalo”. Longe das câmaras, porém, a realidade do substituto dói mais que tombo. Serve de motorista, faz consertos no telhado e carrega a bagagem do protagonista, que desfila tranquilamente ao lado de uma belíssima atriz italiana.

 

Penso que um dublê de verdade não deveria submeter-se a funções tão aviltantes. Eu, por exemplo, se tivesse outro de mim mesmo, o delegaria apenas as tarefas mais difíceis; aquelas verdadeiramente classificadas em alto risco.

 

Uma simples ida ao centro de Belo Horizonte, por exemplo, bastaria para que o meu dublê entrasse em cena. Afinal, quem não conta com um profissional dessa estirpe poderia acabar protagonizando a nova temporada de “Desventuras em Série… na Praça Sete”. Já me aconteceu.

 

Foi lá que certa vez perdi o jogo das pernas ao desviar da rota de um batedor de carteiras frenético. Sambei para um lado, vacilei para o outro e acabei estatelado no colo de um hippie. Se fosse filme, seria Chaplin. Mas a vida me aproximou do drama. O imbróglio só chegou ao fim após acertar o prejuízo do vendedor de muambas: dois cachimbos espatifados.

 

A propósito, da Praça Sete até subir Bahia, só vou se o meu dublê for. Apenas um domador do perigo habilitado seria capaz de enfrentar o temível comedor-de-pés-de-quem anda-a-pé-no-centro-da-cidade: também conhecido como o abominável veículo Move. São enormes criaturas urbanas que, ao convergir nas ruelas do centro, saem mordendo os pezinhos de transeuntes distraídos. Por sorte, ainda tenho os meus no lugar.

 

Mas se for de carro, vá de dublê. Somente profissionais melindrados estariam aptos a negociar com os guardadores de carro. Ao ser coagido a “deixar um café” de vinte reais antecipados, meu dublê saltaria um mortal para trás e aterrissaria os dois pés junto ao chão para arrematar: aqui não, meu chapa! Aí sim, eu estacionaria o meu carro sem medo e, o melhor, em grande estilo.

 

Mas atenção! Na volta para a casa, antes mesmo de pôr o cinto de segurança, certifique-se de que o seu dublê esteja bem ao seu lado. Afinal, nunca se sabe quem te espera no próximo sinal. E é bom avisar: evitem as ladeiras do Santo Antônio.

Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

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