Crônicas Culturaliza Literatura

Crônica: A lenda da ministra sem cabeça

Na escola de Jairzinho ninguém contava histórias. Embora pudessem contar nos dedos das mãos os livros que liam. Monteiro Lobato, não liam. E com ele, um sítio inteiro ficou para trás.

 

O menino nunca soube da boneca de pano que falava. Nem do Saci, que de uma só perna, pulava. Jairzinho cresceu sem ter medo da Cuca e, como não pôde contar com a sabedoria do Sabugosa, acabou tornando-se Jair, não o cantor, nem o jogador, mas o presidente.

 

Jair presidente mostrou-se travesso no trono. Entre suas traquinagens, resolveu convocar a ministra sem cabeça para governar. Juntos, fundaram um ministério da família, não da sua família, nem da minha, mas da família tradicional brasileira.

 

Num disparate da ministra sem cabeça, mandou queimar os livrinhos folclóricos da escola. Nada de Boto ou de Curupira. Quiçá, de Mula sem Cabeça. Tudo foi parar na fogueira. A partir de agora, nenhuma lenda seria aceita. Mito havia um só; e esse todos sabiam de cor.

 

Enganou-se quem pensou que as bruxas escapariam. O Manual Prático de Bruxaria em Onze Lições também virou pó. Sorte a minha que li e reli o livrinho clássico de feitiços na escola. Hoje sou bruxo e escrevo crônicas. Mas serei chamuscado assim que pôr o ponto final nesta história.

 

Só que não; passo bem. Embora ainda me entale na garganta essa lenda da ministra sem cabeça. Quer censurar a imaginação, mas vê Jesus em pé de goiaba e enxerga um mundo de meninos vestindo azul e meninas, rosa. Que prosa

Guilherme Scarpellini
Guilherme Scarpellini
Jornalista e acadêmico em Direito, vive com um livro às mãos. Quando criança quieta e calada em Araxá, havia sempre uma tia chata a perguntar: mas esse menino está doente? Não era nada disso, sabia a mãe. Apenas preferia ouvir e observar. Adulto, em Belo Horizonte, não faz diferente. Ouve e observa; mas escreve o que vê.

One thought on “Crônica: A lenda da ministra sem cabeça

  1. Olá; fico honrado em conhece-lo e poder degustar do seu texto. Parabéns. Entendi direitinho o seu recado. Quem a ministra também tenha o prazer de ler sua crônica. Parabéns Guilherme.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *