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Uma história de família – Silviano Santiago

Sempre reforço o quanto é importante ler obras de autores nacionais. É muito prazeroso poder identificar os lugares, os trejeitos e costumes tão familiares a nós. E quando o autor é mineiro e escreve sobre o nosso interiorzão, mais gratificante é. A dica de hoje é do mineiro da cidade de Formiga, Silviano Santiago, autor de vários romances, contos, ensaios literários e culturais. Santiago já foi agraciado 3 vezes com o Prêmio Jabuti, pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Em 2017, teve uma edição do Suplemento Literário de Minas Gerais totalmente dedicado a ele. Com toda essa história literária, se você ainda não conhece Silviano Santiago, pode começar pelo livro “Uma história de família” a nossa dica de hoje.

 

Publicado pela editora Rocco, em 1992, “Uma história de família” é um livro fininho, pouco mais de 100 páginas, que traz uma conversa imaginária entre um homem (que só agora percebi que não é dito seu nome) e o seu tio Mário, irmão da sua mãe, tido como louco, trazia no rosto um sorriso marcante, mesmo diante das ameaças incompreendidas de morte. Não sabia se o tio Mário era surdo ou mudo, porque ele não falava nada. O certo é que todo mundo queria vê-lo morto, inclusive sua própria mãe, que chegou a clamar aos céus que o levasse, em troca do corpo da filha que havia morrido. “Mas Deus, dando uma de palhaço de circo ou será que uma de (como ela queria) criminoso, não trocou os corpos no leito de morte”. (pág.34). Visivelmente arrependido e tocado pela situação de penúria em que vivia o tio, o personagem principal, revisita o passado numa tentativa de entender o porquê de tanta hostilidade e violência. Tio Mário por diversas vezes sofreu agressões e tentativas de assassinato.  

 

Ambientado nas cidades mineiras de Pains, Formiga e Belo Horizonte, o romance é poético e sutil. A mineirice é presença forte na história, seja por meio dos cenários, dos costumes, ou das frases de impacto daquelas que os mais velhos soltam ao concluir um assunto polêmico. “Era preciso cercar de cuidados e carinho os lugares e as posses. As coisas mais insignificantes e as mais resistentes eram as que mereciam proteção – cercas, muros, correntes, cadeados, chaves. (pág.43). Gostei de quando ele relembra a sua infância em Formiga, olhando apenas cartões postais e resgatando a memória da família. Também gostei muito da capa, repletos de objetos que você encontra em qualquer passado que decidir revisitar.  

“Uma história de família” é um resgate das memórias de um homem que decide, no fim da vida, reparar as injustiças de um parente renegado por aqueles que deviam cuidar e amar. É sobre amor, culpa, ética, empatia e aparências.

Esta coluna é publicada aqui, todas as segundas!

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Elis Rouse
Elis Rouse
Sou Elis, não sou Regina; sou do interior e amo a capital; sou jornalista, mas não trabalho em jornal; amo ler, sonho escrever; dicas vou dar, dicas quero receber; experiências vamos trocar; literatura brasileira vamos amar!

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