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Uma Duas – Eliane Brum

Uma Duas é aquele tipo de história que te deixa chocado do início ao fim, e bem depois disso.

A escritora gaúcha Eliane Brum é referência no jornalismo brasileiro pelas belíssimas reportagens e crônicas sobre temas polêmico, marcantes e principalmente que afetaram o nosso dia a dia, como por exemplo, “Onde está o Amarildo?”  – Revista Época (2013) e “Como fabricar monstros para garantir o poder em 2018” El Pais (2017). No jornalismo já ganhou mais de 40 prêmios. Publicou 7 livros, sendo 5 de não-ficção e 2 ficções. Uma Duas é o seu romance de estreia e traz a marca da jornalista que sabe [e muito bem] contar uma história, com um texto ao mesmo tempo sensível, forte e marcante em todos os sentidos. O que são os jogos de palavras usados neste livro? Fantástico!

 

Uma Duas, conta a história da árdua relação entre Laura e a sua mãe Maria Lúcia. Esqueça tudo o que você já ouviu sobre relacionamento conturbado entre mãe e filha. Aqui a treta é bem tensa, com ofensas, maus tratos e pasmem tentativa de homicídio de ambas as partes. A história começa sendo narrada na visão da jornalista Laura, que recebe a pior notícia de sua vida até então, a mãe está há dias sem dar notícias a amiga Alzira, que resolve arrombar o seu apartamento temendo que o pior possa ter acontecido. Não pense que a notícia é ruim pela preocupação com o estado de saúde da mãe, mas por uma provável reaproximação das duas, que ela abomina terminantemente. A partir daí Laura começa a narrar com uma riqueza absurda de detalhes o resgate e reencontro com a mãe, os desdobramentos da internação, os acontecimentos que marcaram sua infância, seu momento atual no emprego e a relação com o chefe que ela apelida de lagarto azul. “Que história é essa de não abrir a porta? Se estiver se fazendo de vítima ela não passará para vê-la nem no Natal. Quer machucar a mãe com suas unhas até vê-la sangrar, quer quebrar uma unha no osso da mãe” (pág.7).

A mãe sofre um infarte e está vivendo em condições sub-humanas de vida, em completo abandono. Destaco aqui o fato de o seu gato de estimação ter comido um pedaço do seu pé. Mergulhamos na narração dura e dramática de Laura, que a cada frase vai deixando claro o seu desprezo com relação a mãe. Eu começo a pensar que assim como Bentinho em “Dom Casmurro” Laura é manipuladora e quer ludibriar o leitor com a sua versão dos fatos. Até que uma nova narrativa toma conta do livro, e um narrador “observador” começa a descrever e confirmar toda a repulsa de Laura pela mãe. Ela é manipuladora e dissimulada, mas a mãe também é. Não ache que para por aí. De repente a mãe toma a narração e começa a apresentar toda sua história de vida, e vamos compreendendo os motivos que levaram a separação delas. Forçadas a conviver na mesma casa, as duas nos apresentam a agonia dessa convivência. E não há palavras para descrever o quanto essa convivência é perturbadora. Laura se corta desde a adolescência. A mãe sabe e não faz nada para ajudá-la, pelo contrário. Destaco aqui as narrações dos momentos em que Laura se tranca no quarto para escrever e se cortar, enquanto mãe arranha como num filme de terror a porta do seu quarto. “Tenho vontade de ficar arranhando a porta de Laura para que ela nunca se esqueça do som das minhas unhas. É tão divertido ficar apavorando Laura…” (pág.73)

É uma trama de ódio, dor, tristeza, que no fundo se revela em amor, mas não há espaço para que ele se desenvolva. As duas estão em um jogo de final de campeonato em que uma vai ter que perder. Certamente as duas perdem, mas o leitor ganha uma história diferente de tudo o que estamos acostumados a ler. Por isso acho que vale a pena indicar, mas adianto que a leitura não é pra qualquer um. Tem que ter o chamado estômago forte pra encarar as cenas, e desvinculá-la da sua vida depois que terminar.  Uma Duas, é mais um representante da literatura nacional que deveria estar no topo dos mais vendidos, mas para isso precisa ser descoberto, indicado e lido.

 

Esta coluna é publicada aqui, todas as segundas!

Envie seu e-mail para a colunista: elisrouse@culturalizabh.com.br

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Elis Rouse
Elis Rouse
Sou Elis, não sou Regina; sou do interior e amo a capital; sou jornalista, mas não trabalho em jornal; amo ler, sonho escrever; dicas vou dar, dicas quero receber; experiências vamos trocar; literatura brasileira vamos amar!

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