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Dom Casmurro – Machado de Assis

Precisamos falar sobre os clássicos. Precisamos dar uma chance aos clássicos.

Se você assim como eu abominou os clássicos na escola, calma! Ainda dá tempo de se redimir e recuperar o tempo perdido. Durante esse ano fui dando dicas de leituras de livros de escritores brasileiros da nova geração e também alguns clássicos fáceis de ler. Cheguei à conclusão que toda leitura tem o seu momento certo e o de ler os clássicos é quando o leitor está despreocupado, lendo com prazer sem a pressão de fazer uma prova ou um trabalho, sem a pressão de todo ano letivo nas questões de literatura. Reli vários clássicos e amei reconhecer a história da “A escrava Isaura”, “Senhora” e  “O Grande Mentecapto”. Por isso hoje apresento a resenha do famosíssimo “Dom Casmurro” de Machado de Assis.

 

A história de “Dom Casmurro” é bem conhecida e polêmica. Mesmo quem nunca leu sabe um pouco sobre os personagens Capitu e Bentinho, o seminário e a traição. A obra já foi adaptada para o cinema, teatro e TV, mas é lendo que você tem acesso a história crua e pode tirar suas próprias conclusões. A história é narrada sob a ótica de Bentinho que faz um panorama da sua vida, desde e infância até o momento em que se torna o “Dom Casmurro”. Bentinho é atormentado com a promessa da mãe de dar o filho único ao sacerdócio. Ele abomina a ideia de todas as formas e passa a bolar, junto com a melhor amiga Capitolina (Capitu), planos para dissuadir a mãe. Tenta um acordo com o “agregado” da família, José Dias e em seus desesperos até o Imperador poderia ter ajudado na empreitada. Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário”. (pág.48).

Como promessa é coisa levada a sério. Bentinho vai para o seminário (não é spoiler), deixando para trás uma paixão recém aflorada pela amiga Capitu, que jura esperar pela sua saída para se casarem. Ele narra alguns momentos vividos no seminário ao lado do amigo Escobar e também as visitas a Capitu, a mãe e ao José Dias, que agora tem a missão de tirar Bentinho do seminário. Nesse período, Bentinho se mostra muito sensível e ciumento, ao ver o amadurecimento da sua amada e também a possibilidade da quebra da promessa por parte da Capitu. Prova disso é um verdadeiro piti que ele dá quando um cavalheiro simplesmente olha para Capitu que está a janela conversando com o próprio Bentinho. A partir daí a saída do seminário é dada como certa, mas não vou dar o spoiler. Bentinho entra para a faculdade de direito, retorna a casa da mãe e se casa com Capitu. A amizade com Escobar vai além do seminário. Eles continuam amigos, vizinhos e o grande ponto da história é quando Bentinho começa a desconfiar da semelhança entre o seu filho e o seu melhor amigo. Afinal, Capitu traiu ou não?

 

Ao longo da história, achei o personagem Bentinho inseguro diante da força da personagem Capitu. Em vários momentos ele ressalta sua inteligência e esperteza, com um pouquinho do que classifiquei como inveja. Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem” (pág.62)  e ainda “Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não?” (pág. 130). Por isso, pra mim a polêmica se Capitu traiu ou não é fruto dessa insegurança do personagem que mesmo apresentando os fatos do seu ponto de vista não conseguiu me convencer.

 

Sobre ler os clássicos, sabe o que eu gosto? É da fidelidade dos escritores com o leitor que não passa batido em “Dom Casmurro”. Machado já começa a narrativa explicando o porquê do nome. Ele conversa diretamente com leitor, é como se fosse diálogo antigo onde às vezes seja necessário perguntar de novo e no caso consultar o dicionário para entender. É legal ver o tanto que fomos abreviando os termos “acompanha-lo-ia” “falar-lhe-ia”, não caberia nas conversas de whatsapp, por isso precisamos conhecê-las (ainda existe esse termo?). Também bato palmas para títulos em todos os capítulos, não sei se é da edição, mas ficou muito caprichado. Gosto das paradas na história para explicar ao leitor o motivo daquele capitulo extra ou ainda relembrá-lo sobre algum fato importante que será abordado. “A tudo acudíamos, segundo cumpria e urgia, coisa que não era necessário dizer, mas há leitores tão obtusos, que nada entendem, se se lhes não relata tudo e o resto. Vamos ao resto” (pág.160).É por leitores menos obtusos que precisamos colocar os clássicos na nossa meta de leitura.

 

Esta coluna é publicada aqui, todas as segundas!

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Elis Rouse
Elis Rouse
Sou Elis, não sou Regina; sou do interior e amo a capital; sou jornalista, mas não trabalho em jornal; amo ler, sonho escrever; dicas vou dar, dicas quero receber; experiências vamos trocar; literatura brasileira vamos amar!

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